Terra

 

Romance

 

(Translated into Portuguese by the GI Sao Paulo)

 

 

 

Ele procura a coletânea de receitas de confeiteiro da família, que desapa­recera há décadas na cosmopolita cidade de Alexandria. Ela, agora que já não são mais um casal, encontrou um trabalho em Barcelona. Quando os dois se encontram lá, longe da cidade de Berlim, que era de ambos, eles começam a conversar.

Da Algéria atá a Albânia, da Espanha até o Egito, as passagens de navio conduzem o protagonista atento nesse livro sobre a região mediterrânea.

Perikles Monioudis o descreve como expressão dos fluxos de migrações na Europa nas últimas décadas: «Sabia que possivelmente, que talvez fos­se sua possibilidade, só demoraria uma geração até que o fugitivo se tor­nasse um passeante.»  

 

 

(Partes dos capítulos 1 e 8)

 

 

 

1

 

Após o jantar, o vento nas costas, ele caminhou pela rua até chegar a uma ampla praça iluminada por uma luz profusa. Por um instante, tentou visualizar mental­mente o mapa da cidade de Alexandria que ele havia deixado no hotel sobre o seu criado-mudo. Sentiu um sabor de maresia na brisa. O viajante suspirou, como se tivesse acabado de chegar à outra margem ao sill do Mar Mediterrâneo.

Quando se voltou, esbarrou contra um banco de madeira. Algumas de zenas de bancos estavam dispostas na frente do palco. Ficou um tempo observando as pes­soas mais velhas, um grande nillnero de famílias e grupos de jovens. Chamou-lhe atenção a forma de como eles olhavam ao redor, curiosos, provavelmente haviam chegado de aldeias localizadas no delta do Nilo. A iluminação colorida, luzes nas laterais da praça, as banquinhas nas quais vendedores torravam amendoim e frita­yam milho verde. Comprou um punhado de pistaches. Descobriu que era dali que vinha a música que ele já tinha ouvido de longe nas ruas mais afastadas: era uma gravação, as caixas de som empilhadas, formando torres pretas da altura de um homem, à esquerda e à direita do palco, presas com cabos nas enormes seringueiras e palmeiras.

Os bancos se encheram de pessoas, como se todos estivessem seguindo uma or­demo As pessoas piscavam, protegendo os olhos com a mão, grande parte dos ho­lofotes estava voltada para a plateia e para as banquinhas, das quais os grupos de pessoas jà se afastavam. Movimentavam os lábios cantando o texto, fechavam Os olhos, com os dedos batiam o ritmo pausado sobre os seus joelhos, com o pé na areia batida.

Ele gostava desta música. Percebeu que sentira a sua falta, não com saudades, mas como se uma felicidade por muito tempo esperada tivesse se tornado realidade. Seu pai possuía diversas Etas desta cantora que cantava com um áspero contralto, as Etas identificadas com letras árabes, azuis e vermelhas. Aos doze anos o rapaz ou­via as músicas seguidamente. Hoje estava admirado que essas canções na época o motivaram a dançar, a rodar os quadris de alegria, jogando os braços para o ar. Era essa música mais familiar a ele do que as músicas cantadas na escola, em alemão, mais familiar que as canções na televisão, apresentadas por nativos, pelas pessoas que só encontrava fora de sua casa?

Descascou um pistache e, como havia observado as pessoas aqui fazerem, jogou-o na boca com um rápido movimento do punho. Guardou as cascas no bolso de sua calçe, quando este começou a se encher, ele o esvaziou ao lado de uma palmeira. Os pistaches estavam saborosos. Talvez ele devesse comprar meio quilo para guar­dar – mas quando é que teria uma oportunidade de preparar kadaifi ou baklava? Certificou-se de que sua carteira ainda estava no bolso de seu casaco, ao mesmo tempo sentiu-se infantil, ninguém estava querendo a sua carteira. De onde vinha esse medo, perguntou-se. Deu alguns passos e sentou-se na extremidade de um banco, ao lado de uma família; aqui no oriente, até ele mesmo conseguia fazer dis­tinções e conseguia inserir a própria pessoa nessas distinções imaginadas ou reais como algo que na verdade não era: uma pessoa des de o início insofismável.

o homem com o samowar nas costas ofereceu-lhe o copo vazio, insistiu. O chá preto amargo ainda estava quente. O viajante devolveu o copo vazio, instantes de­pois já procurava no bolso da jaqueta uma nota para o bilhete que um velho trajan­do um terno marrom bastante gasto the entregou na mão. Tinha dificuldades em decifrar a letra no pedaço de papel, novamente sentiu-se como um mal-informado.

Lembrou-se do momenta no qual ele, com doze anos ou talvez um pouco mais, compreendeu que não poderia saber tudo sobre o mundo. Um garoto que ficava deitado sobre a cama, pensando, contemplando o seu interior, alimentando a si mesmo com uma força infantil aparentemente sem limites, formando sempre aque­la megalomania, uma mania todavia somente sua, uma espécie de êxtase fantástica: o capitão nos mares do mundo precisa de ação, o solitário beduíno precisa de es­forço, o grande inventor precisa circular, viajar.

A fantasia muitas vezes terminava de baixo da cama, onde o menino pas sou anos deitado, com prazer, ou entao sobre a cama mesmo, arrumada à francesa, com um lençol branco, outro lençol e o cobertor fino azul para dormir. À noite era colocado o edredom, durante o dia, enquanto o edredom ficava ao lado do travesseiro de penas no bau de cabeceira, a colcha cor de vinho. Ali ele ficava deitado, contem­plando com um olhar interior o teto do quarto.

A cama era feita como em uma cabine de navio. O rapaz ficava horas deitado sobre a cama e assustava a si mesmo, alimentando um temor inominável. Temia morrer, ou que a sua mãe, um de seus irmãos, seu pai pudessem morrer. Teria provavel­mente dado a sua vida para evitar que lhes acontecesse algum mal. A morte, ou tal­vez somente a sombra desta, ocupava demais seus pensamentos. No entanto, esta­va obcecado pelo mundo a ser descoberto. Eo lado negativo do mundo, o mundo já descoberto, assim ele acreditava, seria a morte, a última solidão.

A grande cidade não saía da cabeça do menino. Mais cedo ou mais tarde ele se mu­daria para a grande cidade, para Zurique, talvez para uma cidade maior ainda, para Chicago, Londres ou Berlim. Em Zurique havia bondes, a cidade era iluminada, ele podia ver lojas de magazines e rostos que nunca vita antes. Na pequena capital do cantão nada e ninguém lhe eram estranhos, todos que ele conhecia, o conheciam também. A pequena cidade, que ele tanto amava, com as diferentes estações do ano e suas características, os rituais que ele seguia piamente e com prazer: São Nicolau, o Natal, a Páscoa. Mesmo assim ele queria se mudar para a cidade grande, uma ci­dade na qual ele poderia substituir o teto do quarto pelas inúmeras ruas e praças, poderia trocar as montanhas pelos quarteirões.

Em um ambiente, no qual as pessoas só saberiam dele o que ele mesmo mostrava, ele ficaria acuado, já sentia isso naquela época. Sem distinções, ele seria obrigado a se considerar um estranho. Aqui, na região mediterrânea, ele se orgulhava, pois desde jovem sabia imitar com sucesso o hábito dos nativos. Mastigava os pistaches, olhou em torno de si.

Perguntou-se qual era o motivo daquele pressentirnento infantil, das fantasias pas­mas que ele já nem almejava mais, o capitão, o beduíno, o grande inventor. Ofus­cado pelas luzes dos holofotes ele pensou se esse pressentimento talvez pudesse ser algo como um instinto, aquele mesmo instinto que ele sempre seguira fielmente, que fazia com que ele se voltasse para uma pessoa, ou que lhe virasse as costas.

O palco era grande o suficiente para uma orquestra de instrumentos de sopro, pen­sou, será que estava sendo montado para isso. Quando era criança, seu pai sempre lhe contava a história do maestro de Big-Band Glenn Miller. Começava com os su­cessos durante a guerra e terminava sempre com a batalha em El-Alamein e a pe­quena Capela de Música, uma banda, com a qual o seu pai havia tocado trompetes e contrabaixo em suas horas livres nas boates de Alexandria ou em casamentos.

O menino só entendeu que a esposa ficara esperando Miller em casa enquanto as tropas dos Estados Unidos estavam em outro continente – aqui. Em todos os dis­cos de capa vermelha Miller sorria em seu terno azul, um trombone no braço. A imagem estava gravada em sua memória, ele queria mesmo saber por que.

Outra história que seu pai gostava de contar era a da cantora egípcia, que morrera nos anos setenta. Umm Kalsum era detentora de um contralto áspero, sonoro, uma voz que parecia ter saído de um conto de fadas, ou o que um garoto imaginava ser um conto de fadas. Quando Umm Kalsum cantava no rádio as pessoas largavam tudo para se reunir na frente dos aparelhos de som, ou ainda amarravam estes na frente das janelas. O trânsito parava, se é que os carros já não estivessem parados mesmo na frente do cabeleireiro, nas praças e nos mercados, se os seus motoristas já não estivessem nos cafés, ouvindo aquela voz que se levantava de repente, após a introdução – cordas nervosas, tamborins simples, pandeiros – causando um eco múltiplo: Ya-habibi; início e cumprirnento ao mesmo tempo: Ah, meu amigo.

O canto lacrimoso, materna e sedutor de Umm Kalsums durava meia hora, provo­cando um entusiasmo silencioso nos homens arrebatando-os ao Tarab. Longe der ser uma líder espiritual, ela era a origem e a realização daquela saudade que instiga­va, acompanhada pelo ritmo oriental das flautas pastoris e dos violoncelos, das vo­zes dos profissionais de som e dos funcionários da gravadora dando instruções.

No palco, perto do microfone, nada acontecia. Ouvia a voz de Umm Kalsum e via as pessoas, concentradas em si mesmas, a maioria de olhos fechados, sentadas nos bancos enflleirados. Era impossível, que Umm Kalsum pudesse se apresentar, mesmo assim eles pareciam ter vindo na esperança de ouvir ou ver alguém que pu­desse terminar o silêncio, que agora começara e que durou toda uma vida: Ya­habibi. Já não era mais uma gravação, novamente: Ya-habibi. As cordas começa­ram, estas também não eram uma gravação, os músicos deviam estar sentados atrás do palco, como se esse palco grande e resistente tivesse sido construído para uma so pessoa: uma pessoa delicada, com um vestido longo e branco, vinte e poucos anos, um lenço de seda amarelo na mão. Ya-habibi, ela cantou, e as pessoas res­ponderam, começaram a bater palmas no ritmo. A jovem cantou a canção de Umm Kalsum, aquela que antes haviam ouvido em uma gravação – ninguém havia consi­derado isso possível. Viam nela Umm Kalsum, a idade era a mesma, só podia ser Umm Kalsum.

Ela mal deixou o palco e todos se abraçaram. Conheceram o fantasma de Umm Kalsum no momenta em que ela se tornou um. Perguntou pelo nome da cantora e lhe responderam: Amal Maher.

As pessoas dançavam nas ruas, cantavam o seu nome, a notícia logo se alastrou. Ele retornou ao hotel.

Os recepcionistas olharam para ele, como se ele tivesse algo muito precioso. Não tinham esperado que hoje, no terceiro evento deste tipo em dez anos, o fantasma fosse reconhecido.

No quarto já havia novamente uma garrafa de água e frutas sobre a mesa. Deu ao pajem, que havia aguardado a sua chegada na frente da porta, uma nota de uma li­bra do maço de notas que tinha no bolso da calça. Depois, sentou-se no terraço, olhou para o mar, alguns andares abaixo de si via a corniche.

O evento à noite havia parado o trânsito, a maioria dos motoristas estava buzinan­do. As pessoas pulavam sobre os carros, não tinha como atravessar as ruas de Ale­xandria.

Manteve os olhos fechados por algum tempo. Mais adiante, no Cabo, estava locali­zada antigamente a confeitaria de seu avô. Havia trazido algumas fotos da loja e esperava encontrar o livro de receitas, um álbum antigo que fora confiado de mão em mão. Certamente fora seqüestrado e já levado para outra confeitaria, pois era muito valioso. Os oficiais aduaneiros guardavam os objetos – jóias, prataria, roupas, roupa de cama – daqueles que na época tiveram que deixar o Egito, para seus pre­postos e para si mesmos.

Seus irmãos haviam lhe pedido para dar uma olhada nas propriedades distribuídas, especialmente os terrenos no Chipre, os móveis franceses de seus avós, a prataria da família.

Nas mãos de quem será que estaria o livro de receita grande, encapado em couro, já quase se desfazendo, a coleção de doces de sua família?

 

 

(Do capítulo 8)  

O garoto que o viajante encontrou durante o tempo em que passou em Nikosia era muito pequeno para que pudesse ficar sozinho na Suíça, havia acompanhado os seus pais para o Chipre ainda antes de entrar na escola, deveria freqüentar a escola pela primeira vez ali. O garoto falava alemão suíço com os seus pais, mais exata­mente, um dialeto suíço que, comparado com os outros, era mais lento, tinha mais vogais, era falado com uma tendência mais rítmica e no final da frase, misturava-se com o seu próprio eco, muitas vezes terminando com uma vogal puxada, em geral aberta.

O dialeto do viajante, ao contrário, era mais grosseiro, também uma melodia canta­da, mas com sons ásperos, mais gutural, rolando o R, apresentava vogais fecha­das e um U que aparecia com freqüência, especialmente no fim da frase.

Ambos dialetos tinham características rurais, mesmo assim, percebia-se na lingua­gem do garoto que a região, na qual ele era falado, tinha colinas suaves, já o dialeto do viajante era proveniente de regiões montanhosas e, no entanto, haviam mantido de forma adequada – e com estes todos os dialetos da Suíça alemã – a oralidade sem que a escrita tivesse algum direito de existir, mesmo sem utilizar a escrita para apresentar a oralidade, havia uma gramática simples, uma ortografia não­obrigatória, que combinaria com qualquer idioma, pensou o viajante, quando ouviu o garoto falar pela primeira vez.

A sua mãe o buscou com um pequeno carro escuro e o levou primeiramente à em­baixada, o menino ficou aliviado quando viu o diplomata, com este ele poderia como sempre trocar algumas frases compreensíveis. Há pouco tempo, na escola internacional que os filhos dos diplomatas freqüentavam, o menino novamente só compreendera o pouco que já sabia, independente do empenho de seus pais, dos livros ingleses, das revistas em quadrinho gregas nas quais tanto havia insistido, as fitas com histórias infantis, das quais não compreendia todas as palavras, mas que ele queria tanto compreender. Ele descobria uma palavra desconhecida, procurando as palavras para frente e para trás, novamente para frente e novamente rebobinan­do, ele memorizava a palavra, assim o viajante a poderia lhe explicar mais tarde, de preferência assim que o encontrasse.

O garoto que veio da capital suíça, que crescera com aquele dialeto, agora estava na idade escolar e não tinha condições de aprender um idioma que não fosse somente oral, que precisava ser escrito, faltavam-lhe as palavras alemãs para fazer corres­pondência às palavras inglesas.

O garoto havia aprendido o alfabeto no jardim da infância, sabia escrever seu nome e o nome da capital do país, nada mais. Ele não sabia o que as letras representavam. O alemão escrito, como se chama o alemão na Suíça, alemão erudito, como era de­nominado em outros lugares, não tinha corres­pondência no dialeto, era a própria língua estrangeira que deveria explicar este ao garoto.

Entre um idioma estrangeiro e outro idioma estrangeiro, inglês e alemão, o garoto começou a gaguejar, só falava fluente no dialeto. Além dos seus pais, ele só conse­guia se comunicar com o viajante. Como ele poderia aprender assim uma língua, que não fora sempre a sua? Obrigado a analisar o próprio idioma, o garoto perdeu o idioma. Acabou não falando mais nada.

A afasia pela qual o garoto teve que passar, fez com ele desenhasse e pintasse mais. O pequeno teclado, no qual ele inventava cada vez mais melodias, tornou-se seu brinquedo predileto. Agora também o seu alemão suíço havia se deteriorado, sem que algo novo tivesse tomado conta de sua boca: o garoto falava muito consigo mesmo, em uma mistura que só ele entendia, pois havia sido dito somente para ele. Quem conseguiria acompanhá-lo nesta jornada? 

 

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